Entrevista com Evandro Lorens

Equipe: Recentemente aconteceu a maior operação de combate a pornografia infantil no Brasil. Em Barra do Garças, Mato Grosso, ela recebeu o nome de Luz da Infância. Como começou a operação?

Evandro Lorens: A Luz na Infância foi uma operação que ocorreu em outubro de 2017 coordenada pela SENASP (MJSP) com participação das polícias civis de 24 estados brasileiros em cooperação com a Embaixada dos Estados Unidos. Em maio de 2018, ocorreu a operação Luz na Infância 2, sob coordenação do MESP e com a participação das polícias civis de 24 estados e do DF. A Polícia Federal não participou destas operações.

Qual a participação da perícia?

E. L.: Nas operações contra pornografia infantil, os peritos criminais basicamente apoiam de quatro maneiras: 1) no monitoramento e levantamento dos alvos; 2) no planejamento das operações; 3) nas equipes das operações propriamente ditas (para tentar identificar rapidamente, e com ferramentas próprias, a presença de material de pornografia infantil nos equipamentos a serem apreendidos, viabilizando as prisões em flagrante); e, 4) na análise pericial dos equipamentos apreendidos nas operações (computadores, tablets, smartphones, etc).

Especificamente que tipo de material foi recolhido?

E. L.: Apreendem-se nos locais de busca os equipamentos com capacidade de armazenamento que possam conter material de pornografia infantil e que sejam considerados suspeitos pela equipe da operação: computadores, notebooks, tablets, smartphones, pendrives, HDs externos, discos ópticos (CDs, DVDs, Blue-Rays), SSDs, cartões de memória, consoles de vídeo game, máquinas fotográficas, filmadoras, entre outros.

Ilustração de Evandro Lorens, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses
Ilustração de Evandro Lorens, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses

Quais as dificuldades encontradas na coleta desses materiais?

E. L.: A maior dificuldade talvez realmente seja selecionar o material com potencial de armazenamento de material de pornografia infantil. A grande diversidade e a quantidade de equipamentos que há em cada endereço de cada alvo podem resultar em grandes apreensões que, consequentemente, exigirão muito tempo para análise.

De que forma as redes sociais tem ajudado nessas operações?

E. L.: O uso de redes sociais por criminosos para disseminar pornografia infantil ou se comunicar com outros criminosos pode ajudar nas investigações e no levantamento dos alvos das operações.

Como elas têm prejudicado?

E.L.: A superexposição a que as pessoas se submetem nas redes sociais, inclusive crianças e adolescentes, propicia aos criminosos a busca fácil de potencias vítimas de abuso físico, sexual, psicológico, e de outros crimes como extorsão, furto de identidades, golpes financeiros, contra a honra, entre outros. Expor informações pessoais, hábitos, patrimônio, localizações que frequenta e relacionamentos nas redes sociais oferece matéria prima fácil para que os abusadores e golpistas pratiquem uma infinidade de crimes, incluindo a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Ultimamente com os avanços da tecnologia os casos de pornografia infantil virtual tem se tornado mais comum?

E. L.: Com a evolução das comunicações, especialmente com o advento e a evolução das aplicações de Internet, assim como todos os processos em meio digital, os crimes ganham basicamente velocidade e escala de alcance. Ou seja, materiais de pornografia infantil podem ser disseminados e acessados por muitas pessoas em muito pouco tempo. Outra questão que a Internet traz é a falsa sensação de anonimato, que dá aos criminosos a sensação de que não podem ser identificados e localizados. É um engano. Mesmo em ambientes complexos voltados à proteção da privacidade, não existe garantia de anonimato. A prova dessa afirmação está em cada uma das operações bem sucedidas contra a pornografia infantil realizadas pelas polícias de todo o mundo.

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